Exposição já está aberta 

27.08 até 23.10

Gabinete Gráfico, Porto

Manifesto

Onde estão as mulheres na história do design? Porque foram esquecidas as mulheres que se notabilizaram durante a sua carreira? Que mecanismos permitiram estas lacunas? Estas foram algumas das questões que a historiadora britânica Cheryl Buckley1 lançou em 1986 e, ainda que pareça que caminhamos rumo à igualdade — que estes problemas historiográficos já não existem — passados trinta e cinco anos, o que mudou? 

Embora metade dos profissionais de design sejam mulheres, apenas um terço das posições de direção são ocupadas por elas. As mulheres são consistentemente sub-representadas nos eventos de design e, quando existem oradoras, é-lhes dado menos tempo de palco que aos seus colegas homens2. Numa indústria que se orgulha da sua criatividade e inovação, estas estatísticas são contundentes. Os números estão a melhorar, no entanto será que podemos considerar o aumento de mulheres em posições de "sucesso" uma vitória pela igualdade? E é considerado sucesso se alcançado numa estrutura em conformidade com um sistema que propaga a desigualdade?

Embora seja necessário corrigir o equilíbrio do cânone através da identificação e do estudo do trabalho de mulheres designers, esse exercício, por si só, não é suficiente. É essencial perceber como, e por quem, é feita a história, para que a possamos interromper3, e começar o processo de desaprender e reaprender. O cânone não é só excessivamente composto por homens, como é também propagado por homens. Eles são os educadores, os patrões, os clientes. Eles são os editores, os curadores e os oradores. Chegou a altura de dar espaço às mulheres e propor uma Errata à história do design gráfico. Como afirmou bell hooks as “tentativas em melhorar a representação das mulheres não pode apenas adicionar mulheres às histórias existentes — os métodos historiográficos devem ser transformados”4

Para verdadeiramente reconhecer as mulheres no design, temos de perceber que o design não é uma prática solitária, mas um processo coletivo, que não é linear como a história do design — focada na narrativa simples protagonizada pelos corpos normativos, brancos, ocidentais, cisgénero das estrelas masculinas do design — nos ensina. É o trabalho de muitas mentes, muitas mãos, muitas disciplinas. A dificuldade em documentar a pluralidade desta messy history5 proporciona um sistema que seleciona as histórias mais claras, desvalorizando outras, ignorando nesse processo as contribuições de mulheres designers.

É possível que a visibilidade das mulheres no design gráfico seja hoje maior do que alguma vez foi, mas, na verdade, desde que há design que há mulheres designers. A sua ausência da história do design é tanto uma falha da memória, como uma falha da disciplina. Os métodos historiográficos que escolhemos usar, que decidem o que merece ser contado e o que pode ser esquecido, precisam de ser desconstruídos.

A Errata pretende apresentar contribuições de mulheres que foram subvalorizadas, ignoradas ou esquecidas pela história do design português e, ao fazê-lo, revelar os mecanismos ainda presentes que perpetuam estas omissões. A paisagem e a história sócio-política de Portugal são particulares, mas os sistemas que desvalorizam, omitem e ignoram o trabalho das mulheres são universais, e ao partilharmos esta investigação o mais amplamente possível esperamos contribuir para este debate necessário.

A história é uma meada: ao puxar um fio, como o fazemos aqui com as mulheres, outros fios igualmente entrelaçados se tornam visíveis, e outras histórias escondidas se dão a conhecer. Então, onde estão as mulheres no design? Onde estão es designers racializades; es queer; es colectives; es recolhides; es autodidatas e es anónimes? Esperamos que, num esforço empenhado em reescrever, reaprender e recuperar essas várias histórias de forma crítica, consigamos, em breve, que as páginas da errata ultrapassem as páginas da História.

*este artigo usa linguagem inclusiva

1 Cheryl Buckley, Made in Patriarchy: Towards a Feminist Analysis of Women and Design
2 Design Census
3 Ece Canlı, Design History Interrupted: A Queer-Feminist Perspective
4 bell hooks, Feminist Theory: from margin to center
5 Martha Scotford, Messy History vs. Neat History: Towards an Expanded View of Women in Graphic Design


 

Exposição

PORTO, 27.08–24.10.2021

GABINETE GRÁFICO, MUSEU DA CIDADE

O projeto de investigação Errata vai ter a sua primeira apresentação pública no Gabinete Gráfico do Museu da Cidade, de 27 de agosto a 24 de outubro de 2021. A exposição irá apresentar um conjunto de objetos, percursos, histórias e interpretações sobre o trabalho e o papel das mulheres no design gráfico em Portugal no século XX e sobretudo questionar os mecanismos que permitiram que o seu contributo seja omitido pela história.
 

Podcast

O podcast da Errata é um arquivo áudio e uma ferramenta de investigação que reflecte sobre as mulheres designers em Portugal a partir de conversas com pensadores, curadores, historiadores e designers sobre as suas experiências e os seus trabalhos

E0: Intro

Uma introdução ao podcast e projecto de investigação Errata - uma revisão feminista à história do design gráfico português 


 

E1: Vera Sacchetti

Com a curadora e crítica de design Vera Sacchetti conversámos sobre a trajetória que a levou do curso de design de comunicação nas Belas Artes do Porto ao D-Crit em Nova Iorque e também sobre o que a motivou mais recentemente a desenvolver projectos curatoriais que se debruçam sobre o papel das mulheres no design, nomeadamente A Woman's Work e Add to the Cake. Com a Vera falei sobre como se adicionam mulheres à história do design e como se questiona o passado histórico no presente com um olho no futuro.

 

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E2: Susana Carvalho

Neste segundo episódio, a designer de comunicação, Susana Carvalho, contou-nos um pouco sobre o seu percurso profissional e o papel que os movimentos punk e hardcore tiveram na sua emancipação feminista. A Susana mostrou-nos como o mundo do design de tipos é apenas aparentemente dominado por homens e a relação que essa percepção tem com a falta de reconhecimento da natureza colaborativa do design. Também conversámos sobre a responsabilidade dos professores de design e as razões porque traz referências femininas para as suas aulas. 

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E3: Maria Helena Souto P1

Como parte do processo de investigação e preparação da exposição Errata, temos interesse em conhecer não só designers, mas também pessoas que estudaram a história do design a fundo. Neste episódio fomos conhecer e aprender com a historiadora Maria Helena Souto, professora associada no IADE, sobre o Instituto Nacional de Investigação Industrial e a sua importante contribuição no processo de afirmação, consolidação e divulgação do design em Portugal. Ficámos também a conhecer o papel importante da Maria Helena Matos e das designers Alda Rosa e Cristina Reis no INII e nas exposições de design português de 1971 e 1973. 

[Queremos alertar para o facto de que esta conversa sofreu alguns problemas técnicos no momento da gravação e por isso a qualidade do som está comprometida. Apesar dos nossos esforços para corrigir o áudio, há cortes bruscos em vários momentos.]
 

Maria Helena Souto é Professora associada do IADE, é a representante portuguesa no MoMoWo, um projecto europeu incontornável que pretende dar visibilidade às mulheres no design. Foi investigadora responsável pelo projecto Design em Portugal 1960-1974 que entre outras coisas despoletou a exposição Ensaio para um arquivo: o tempo e a palavra. Design em Portugal (1960-1974) que esteve patente no MUDE em 2016. O contributo que a Helena tem dado à história do design português é muito significativo, mas ainda mais importante é o trabalho que tem feito na luta contra a invisibilidade das mulheres.

 

Ver também:
MoMoWo
Design em Portugal 1960-1974
Ensaio para um arquivo: o tempo e a palavra. Design em Portugal entre 1960 e 1974

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E4: Maria Helena Souto P2

O quarto episódio do Errata é a continuação da conversa que tivemos com a historiadora Maria Helena Souto. Neste episódio falamos sobre a Maria Keil, sobre a forma mutidisciplinar como encarava o seu trabalho, e sobre o seu contributo para o design gráfico português.

[Queremos alertar para o facto de que esta conversa sofreu alguns problemas técnicos no momento da gravação e por isso a qualidade do som está comprometida. Apesar dos nossos esforços para corrigir o áudio, há cortes bruscos em vários momentos.]
 

Maria Helena Souto é Professora associada do IADE, é a representante portuguesa no MoMoWo, um projecto europeu incontornável que pretende dar visibilidade às mulheres no design. Foi investigadora responsável pelo projecto Design em Portugal 1960-1974 que entre outras coisas despoletou a exposição Ensaio para um arquivo: o tempo e a palavra. Design em Portugal (1960-1974) que esteve patente no MUDE em 2016. O contributo que a Helena tem dado à história do design português é muito significativo, mas ainda mais importante é o trabalho que tem feito na luta contra a invisibilidade das mulheres.

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E5: Né Santelmo

No quinto episódio embarcamos numa viagem com a Né Santelmo pelos interesses multidisciplinares que moldaram a sua carreira desde o início dos anos 80. Falámos sobre colaboração e processo no projecto de design, e como a experimentação define a sua prática. Também discutimos o estúdio Pã Design, que fundou com a designer Ana Menezes, e se o facto de serem um duo no feminino teve um papel significativo na forma como trabalhavam e no modo como o trabalho era recebido.

Capa do álbum Surrealizar da banda Ban de 1988 com fotografia de João Nunes e arranjo gráfico de Né Santelmo
Né Santelmo, Retrato, 1986, original em papel fotográfico com marcadores mecanorma, fotografia por João Nunes
Capa do álbum Requiem pelos Vivos da banda com o mesmo nome de 1988. Design de João Nunes e Né Santelmo. Fotografia de João Nunes

Ver também:

Aurora envolta em Nevoeiro, artigo sobre Né Santelmo na Fonoteca do Porto por Isabel Duarte

Vai de Roda

Surrealizar, Ban

 

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E6: Emília Ferreira

No sexto episódio, fomos conversar com Emília Ferreira sobre a invisibilidade das mulheres na história e como se pode corrigir o equilíbrio do cânone através da identificação e do estudo do trabalho de mulheres. Conversámos em mais detalhe sobre as artistas Sarah Affonso e a Mily Possoz, sobre o contexto em que viviam e sobre o trabalho que fizeram em artes gráficas.

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SOBRE ERRATA

Errata é um projecto de investigação para-académico que se debruça sobre a invisibilidade das mulheres na história do design gráfico português. 

Disseminado através de exposições e eventos, uma série de podcasts e publicações, o projecto Errata alia-se à crítica, educação e investigação para localizar as histórias omitidas das mulheres designers em Portugal e contribuir para melhorar a representação de género na história do design gráfico.

Colophon

Email errata.design@gmail.com
Instagram @Errata.Design
Facebook Errata.Design

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Projecto e investigação
Isabel Duarte com Olinda Martins

Design Gráfico
ID-AE Studio
Fontes
Atlas Grotesk foi gentilmente cedida 
por Susana Carvalho Carvalho Bernau
Errata por Irregular Type
Programação Web
Queo
Pós-produção sonora
Pedro Augusto

Agradecimentos
O projecto Errata não seria possível sem o apoio e a generosidade de Cristiana Serejo, Ece Canlı, Elvia Vasconcelos, Fiona Churchman, Futuress, Igor Ramos, José Bártolo, Jorge Silva, Louise Darblay, Luiza Prado, Maria David, Maria Helena Souto, Maria João Macedo, Mariana Pestana, Museu da Cidade, Nina Paim, Nuno Coelho, Rafael Ferreira, Susana Carvalho, Vera Sacchetti, Zeina El Maasri, e muites outres.

Projecto apoiado pelo programa Criatório